COMUNICADO: Alterações nos centros de saúde: reforçar as USF-B exige valorizar toda a equipa

A Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar — USF-AN — tomou conhecimento das notícias que dão conta da intenção do Governo de avançar com alterações nos centros de saúde, nomeadamente através da revisão de critérios aplicáveis às USF modelo B e do reforço da intervenção dos enfermeiros de família junto dos doentes crónicos.

A USF-AN considera que qualquer revisão do modelo deve partir de uma premissa essencial: as USF-B não são um problema a corrigir; são uma solução a completar, atualizar e proteger.

O modelo USF-B tem demonstrado capacidade de melhorar o acesso, reforçar a continuidade de cuidados, responsabilizar equipas e valorizar a organização multiprofissional. Por isso, qualquer alteração deve preservar os seus pilares fundamentais: autonomia, contratualização, equipa multiprofissional, responsabilidade partilhada, incentivos justos e foco nos resultados em saúde.

A USF-AN está disponível para contribuir para uma revisão séria, mas rejeita qualquer alteração que se traduza em mais tarefas, mais indicadores ou mais responsabilidade sem evidência da sua necessidade e os correspondentes recursos humanos, tempo clínico, valorização profissional e enquadramento remuneratório.

  1. Rever critérios sim; descaracterizar o modelo não

A revisão dos critérios das USF-B pode ser uma oportunidade positiva, desde que responda a problemas reais: envelhecimento da população, aumento da multimorbilidade, maior complexidade social, pressão assistencial, burocracia excessiva, insuficiência de profissionais e fragilidade dos sistemas de informação.

Mas essa revisão deve ser participativa, transparente e tecnicamente fundamentada.

A USF-AN considera indispensável que o Governo esclareça:

  • qual o enquadramento técnico para a proposta;
  • que critérios das USF-B pretende alterar;
  • qual o impacto esperado na carga de trabalho;
  • que efeito terá na remuneração dos três grupos profissionais;
  • como será preservada a autonomia das equipas;
  • que período transitório será previsto;
  • que simulações foram feitas;
  • que entidades serão ouvidas;
  • como serão protegidas as unidades com populações mais envelhecidas, vulneráveis ou dispersas;
  • como será evitada a imposição de novas obrigações sem contratualização.

Não se pode rever o modelo B por via administrativa, sem auscultação das equipas e sem avaliação objetiva dos seus efeitos.

  1. Equipas de Saúde Familiar: listas mais complexas exigem critérios mais justos

As Equipas de Saúde Familiar enfrentam hoje listas mais complexas, maior envelhecimento, multimorbilidade crescente, pressão burocrática persistente e uma procura assistencial cada vez mais difícil de gerir.

Por isso, qualquer alteração aos critérios das USF-B deve garantir:

  • listas ponderadas pela complexidade clínica, social e territorial;
  • proteção do tempo clínico;
  • redução efetiva de tarefas administrativas sem valor assistencial;
  • contratualização real da carteira básica e da carteira adicional;
  • remuneração justa sempre que sejam assumidos utentes adicionais ou respostas extraordinárias;
  • estabilidade das equipas;
  • critérios de desempenho centrados na qualidade, continuidade e resultados em saúde;
  • respeito pela decisão autónoma dos Conselhos Gerais das USF.

A USF-AN sublinha que as equipas de saúde familiar não podem continuar a ser chamados a resolver, sem contratualização adequada, insuficiências estruturais que resultam da falta de planeamento de recursos humanos no SNS.

A resposta aos utentes sem equipa de saúde familiar deve existir, mas deve ser formal, voluntária, contratualizada, remunerada e compatível com a manutenção da qualidade dos cuidados aos utentes já inscritos.

  1. Enfermeiros de Família: reforço da intervenção exige cumprimento da lei e valorização da especialidade

A USF-AN vê como importante a intenção de reforçar a intervenção dos enfermeiros de família junto da gestão da doença crónica. Esta orientação é clinicamente pertinente, desde que não seja usada como mera transferência de carga assistencial.

Mas há uma questão prévia que o Governo não pode ignorar: a legislação das USF já estabelece que, na constituição das USF, os enfermeiros devem deter o título de especialista em Enfermagem de Saúde Familiar. O regime transitório previsto na lei existe apenas enquanto não houver especialistas em número suficiente; não pode transformar-se numa solução permanente nem justificar a desvalorização da especialidade.

Assim, se o Governo pretende reforçar o papel dos enfermeiros de família, deve simultaneamente garantir:

  • vias ágeis e financiadas de acesso à formação exigida, recordando que a norma europeia obriga a formação especializada. Como tal, a experiência profissional em contexto USF e UCSP deve ser reconhecida e valorizada;
  • abertura imediata de concursos ágeis para a categoria de enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Familiar em todas as ULS.
  • reconhecimento dos enfermeiros de família que já detêm o título e exercem funções em USF e UCSP;
  • dotações adequadas às listas e à complexidade das populações;
  • tempo próprio em agenda para o acompanhamento da doença crónica, organizado em consultas de enfermagem dedicadas — identificados de forma proativa através do estudo sistemático das listas de cada enfermeiro de família.
  • protocolos clínicos claros, definidos com a participação dos profissionais;
  • programas de formação sempre disponíveis para apoiar os enfermeiros de família que assumam responsabilidades adicionais;
  • autonomia no âmbito das competências específicas;
  • articulação efetiva com os médicos de família;
  • valorização remuneratória proporcional à responsabilidade assumida;
  • aposta em indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem e que meçam resultados clínicos, longitudinalidade dos cuidados e valor gerado em saúde e, não apenas em número de contactos ou atos.

A pergunta essencial que tem de estar respondida é: o Governo quer valorizar a Enfermagem de Saúde Familiar ou apenas usar os enfermeiros para absorver pressão assistencial?

Para a USF-AN, a resposta deve ser inequívoca: mais intervenção dos enfermeiros de família só será uma verdadeira melhoria se vier acompanhada de especialização reconhecida, carreira valorizada, condições de trabalho e remuneratórias, protocolos clínicos de atuação/articulação dentro das equipas e dotação adequada.

  1. Secretários clínicos: a carreira recomendada pelo Parlamento tem de sair do papel

Nenhuma alteração aos centros de saúde será eficaz se continuar a ignorar o secretariado clínico.

Os secretários clínicos são decisivos na gestão do acesso, contacto com utentes, convocatórias, organização de agendas, validação de dados, circuitos administrativos, comunicação institucional, resposta telefónica, articulação com a equipa e apoio à gestão de doentes crónicos.

Sem secretários clínicos em número suficiente, com formação adequada e carreira valorizada, qualquer reforço da resposta médica ou de enfermagem fica comprometido.

A Assembleia da República já aprovou uma recomendação ao Governo para a criação da Carreira Especial de Técnico Secretário Clínico, reconhecendo a relevância destes profissionais no funcionamento das USF e do SNS. Essa recomendação continua, porém, por concretizar em termos práticos.

A USF-AN considera urgente que o Governo avance com:

  • criação da Carreira Especial de Técnico Secretário Clínico:
  • definição do respetivo conteúdo funcional;
  • percurso formativo nacional;
  • valorização remuneratória;
  • concursos regulares de provimento e progressão na carreira;
  • reforço das dotações;
  • integração formal dos secretários clínicos na gestão proativa dos doentes crónicos;
  • proteção destes profissionais face à pressão crescente, conflitos no atendimento e violência no local de trabalho;
  • ferramentas digitais que apoiem o trabalho administrativo, sem substituir a relação humana nem deslocar tarefas para médicos e enfermeiros.

A reforma dos centros de saúde não pode continuar a tratar o secretariado clínico como função acessória. Sem secretariado clínico valorizado, não há acesso organizado.

  1. Doentes crónicos: resposta multiprofissional, não solução parcial

A USF-AN partilha o objetivo de melhorar o acompanhamento dos doentes crónicos. Mas esse acompanhamento exige uma equipa completa.

A resposta adequada à doença crónica deve incluir:

  • identificação ativa dos utentes em risco, assente no estudo sistemático das listas;
  • estratificação de risco clínico e social;
  • convocatória estruturada;
  • consultas programadas com tempo adequado;
  • intervenção articulada entre médico e enfermeiro de família;
  • apoio administrativo eficaz;
  • envolvimento de cuidadores;
  • aposta nos cuidados domiciliários sempre que indicados
  • continuidade da informação clínica;
  • sistemas digitais funcionais;
  • indicadores centrados em resultados relevantes.

Este trabalho não pode ser reduzido a produção estatística. Deve medir controlo clínico, prevenção de complicações, redução de internamentos evitáveis, adesão terapêutica, literacia, qualidade de vida e satisfação dos utentes.

  1. O que a USF-AN espera desta revisão

A USF-AN espera que a revisão anunciada seja usada para concretizar compromissos há muito identificados:

  1. Reforçar e generalizar o modelo USF-B.
  2. Preservar a autonomia organizativa das USF.
  3. Abertura da função de coordenação da USF a qualquer elemento da equipa de saúde familiar, permitindo que o Conselho Geral eleja o coordenador de entre os profissionais da equipa em função do mérito e da capacidade de liderança e gestão — em coerência com a natureza multiprofissional e a responsabilidade partilhada do modelo.
  4. Atualizar critérios à complexidade real das populações, adaptando as soluções a cada contexto como a USF-AN faz na proposta que apresentou para as zonas de baixa densidade populacional e que apresentou ao Ministério da Saúde.
  5. Maior agilidade na resolução de problemas no terreno.
  6. Maior flexibilidade nos horários de trabalho.
  7. Maior autonomia no recrutamento de profissionais.
  8. Valorizar médicos, enfermeiros e secretários clínicos de forma equilibrada, por exemplo, no que diz respeito ao suplemento remuneratório associado ao atingimento do IDE.
  9. Cumprir a exigência legal relativa à Enfermagem de Saúde Familiar.
  10. Criar a Carreira Especial de Técnico Secretário Clínico.
  11. Garantir dotações adequadas nos três grupos profissionais (faltam hoje 831 médicos de família, 351 enfermeiros de família e 355 secretários clínicos).
  12. Regularizar incentivos institucionais e assegurar a sua utilização efetiva pelas equipas.
  13. Reduzir burocracia clínica e administrativa.
  14. Modernizar sistemas de informação.
  15. Garantir que a carteira adicional é sempre voluntária, contratualizada e remunerada.
  16. Medir qualidade, continuidade e resultados em saúde, e não apenas volume de atividade.

Conclusão

A USF-AN está disponível para participar numa revisão dos critérios das USF-B e da organização dos centros de saúde.

Mas essa revisão deve ter uma direção: reforçar a atividade de equipas de saúde familiar completas, autónomas e valorizadas a trabalhar em centros de saúde capacitados para dar resposta aos desafios atuais das comunidades e enquadrados por Unidades de Saúde Locais renovadas e focadas também nos cuidados de saúde primários.

Mais intervenção dos enfermeiros de família exige cumprimento da legislação sobre especialidade, concursos, carreira e condições. Mais capacidade de resposta exige equipas de saúde familiar com listas justas, tempo clínico e contratualização adequados. Melhor acesso exige secretários clínicos reconhecidos, formados, em número suficiente e com carreira própria.

Portugal não precisa de fragilizar o modelo USF-B. Precisa de o completar.

A reforma dos centros de saúde só será credível se proteger quem cuida, valorizar quem organiza e gere e garantir aos cidadãos uma vida digna com saúde.

P’la Direção da USF-AN

*comunicado em pdf