COMUNICADO: Linha SNS 24 – Valor, Maturidade e Necessidade de Evolução

COMUNICADO

20.janeiro.2026

A USF-AN – Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar reconhece e valoriza o papel estruturante que a linha SNS 24 tem desempenhado em algumas áreas do Serviço Nacional de Saúde.

A Linha SNS 24 constituiu um avanço relevante na organização do acesso aos cuidados de saúde, na orientação clínica dos cidadãos e na racionalização do recurso aos serviços de urgência. A sua importância tornou-se particularmente evidente em períodos de elevada pressão assistencial, nomeadamente durante a pandemia de COVID-19, em que contribuiu de forma decisiva para a segurança dos utentes, a proteção dos serviços presenciais e a eficiência global do sistema.

Precisamente por reconhecer esse valor e a maturidade entretanto alcançada, a USF-AN considera que se justifica, neste momento, uma reflexão estratégica sobre a evolução e refundação da Linha SNS 24, com vista a reforçar a qualidade, a sustentabilidade e o valor em saúde gerado.

1. Avaliação da qualidade: transparência como pilar da confiança 

Um dispositivo com a dimensão, impacto clínico e investimento público da Linha SNS 24 deve assentar numa avaliação sistemática, independente e transparente.

A USF-AN considera essencial clarificar:

• Se foi realizada uma avaliação formal e pública da qualidade do funcionamento da Linha SNS 24, incluindo segurança clínica, adequação das referenciações e impacto nos cuidados de saúde primários e nos serviços de urgência;

• Se foi realizada uma avaliação formal do impacto da acessibilidade/facilidade de utilização da linha, na ótica do utilizador (por exemplo, se foi testada a utilização/o acesso por população que não tenha capacidade ou facilidade necessárias para lidar com a tecnologia associada);

• Caso essas avaliações não existam, importa compreender por que razão um instrumento central do SNS não foi ainda sujeito a um processo sistemático de avaliação;

• Caso existam, onde se encontram os respetivos resultados, porque não são amplamente divulgados e que medidas concretas resultaram dessa avaliação.

Avaliar não é fragilizar. Avaliar é proteger os cidadãos, os profissionais e o próprio SNS, permitindo consolidar boas práticas e corrigir fragilidades.

2. Sustentabilidade e governação: alinhar autonomia com responsabilidade 

A USF-AN entende que o atual modelo fortemente centralizado da Linha SNS 24 deve ser repensado à luz da reorganização do SNS e da criação das Unidades Locais de Saúde (ULS).

Neste contexto, considera-se legítimo discutir uma evolução para um modelo progressivamente descentralizado, em que cada ULS possa assumir maior responsabilidade operacional pela triagem e orientação dos seus cidadãos, em articulação com os cuidados de saúde primários e os serviços hospitalares da sua área de influência.

Um modelo deste tipo permitiria:

  • Maior adequação às realidade locais,
  • Responsabilização direta das ULS pelo afluxo às suas urgências;
  • Reforço da autonomia com responsabilidade, desde que acompanhada dos recursos humanos, financiamento e sistemas de informação adequados;
  • Melhor integração com as USF, respeitando a sua autonomia e valorizando o conhecimento do território, da população e das respostas disponíveis e necessárias.

Refundar é alinhar governação com responsabilidade efetiva.

3. Inovação e valor em saúde: tecnologia, autocuidados e sustentabilidade 

A evolução da Linha SNS 24 deve igualmente integrar, de forma estruturada, a inovação tecnológica, colocando o foco no valor em saúde para os cidadãos e para o sistema.

A experiência acumulada demonstra que muitas das situações que recorrem à linha corresponde a problemas de baixa complexidade clínica, que necessitam sobretudo de:

  • Autocuidados orientados;
  • Vigilância ativa;
  • Informação clara sobre sinais de alerta e momentos adequados de reavaliação.

Este modelo foi amplamente utilizado durante a pandemia de COVID-19, com bons resultados clínicos, elevada aceitação por parte dos cidadãos e utilização mais racional dos recursos de saúde, permitindo proteger os serviços presenciais para situações de maior gravidade.

Neste enquadramento, a USF-AN considera que a utilização estruturada de chatbots clínicos telefónicos e online, baseados em algoritmos validados, auditáveis e supervisionados clinicamente, poderá:

  • Orientar eficazmente a maioria das situações para autocuidados e vigilância ativa;
  • Tornar a procura mais adequada, mais efetiva e mais orientada para valor em saúde;
  • Reduzir desperdício de recursos assistenciais e administrativos;
  • Libertar profissionais de saúde para situações de maior complexidade;
  • Contribuir para a sustentabilidade do SNS;
  • Aumentar a satisfação dos profissionais e dos utentes, ao reduzir sobrecarga, ruído organizacional e referenciações desnecessárias.

Desde que assegurados princípios de segurança clínica, supervisão humana, auditoria contínua e proteção de dados, dificuldades de algumas pessoas na utilização destas tecnologias (criando alternativas), a tecnologia deve ser entendida como um instrumento de qualificação da resposta, e não como um fim em si mesmo.

Conclusão 

A USF-AN reafirma o seu reconhecimento pela importância da Linha SNS 24 e pelo contributo que tem dado ao Serviço Nacional de Saúde. Precisamente por isso, entende que chegou o momento de promover a sua refundação responsável, assente em:

  • Avaliação transparente;
  • Autonomia e responsabilização territorial;
  • Sustentabilidade financeira;
  • Inovação tecnológica segura e orientada para valor.

Reformar a Linha SNS 24 é valorizar o que foi construído e prepará-la para os desafios futuros, reforçando a confiança dos cidadãos, a satisfação dos profissionais e a robustez do SNS.

A Direção da USF-AN

*comunicado em