COMUNICADO
5.janeiro.2026
Ano após ano, no inverno, o guião repete-se. As notícias voltam a centrar-se na gripe, nas urgências encerradas ou sobrelotadas, nos tempos de espera que chegam a dezenas de horas, nas cores da triagem e no excesso de mortalidade.
E ano após ano, como se fosse uma inevitabilidade, aceita-se que assim seja.
Mas esta situação tem um custo elevado e evitável: vidas perdidas, dias de trabalho e de escola desperdiçados, impacto económico e social e uma degradação significativa da qualidade de vida. Não é um fenómeno inesperado, nem impossível de mitigar. É, sobretudo, o resultado de escolhas políticas repetidas.
Perante cada pico de procura, a resposta é quase sempre a mesma: reforçar urgências, adiar consultas e cirurgias programadas, encerrar camas de internamento e desviar médicos, enfermeiros de família e secretários clínicos dos centros de saúde para estruturas exclusivas de atendimento da doença aguda. Fragmenta-se a prestação de cuidados de doença aguda em CACs, SACs, SNS24, LASSV, SUs, SUBs, aposta-se na quantidade desorganizada em vez da razão qualificada e o resultado são um conjunto de medidas excecionais que consomem os recursos humanos de um SNS, já de si escassos, perturbando o seu normal funcionamento, desgastando os profissionais e enfraquecendo precisamente aquilo que mais protege a população.
Porque é a atividade regular do SNS que salva vidas.
O SNS assenta num modelo de cuidados longitudinais, continuidade baseada em relações de longo prazo entre pessoas, famílias e equipas de saúde — médico de família, enfermeiro de família e secretário clínico — ao longo de todo o ciclo de vida. Um modelo com enfoque preventivo, curativo, paliativo e de suporte, e com capacidade de resposta à doença aguda do quotidiano.

CSP – Cuidados de Saúde Primários
Se dúvidas houvesse, temos a ULS Amadora Sintra, uma das ULS com maiores problemas na resposta à doença aguda por parte dos serviços de urgência, onde 33% da sua população não tem Equipa de Saúde Familiar atribuída.
Foi este modelo que demonstrou a sua robustez durante a pandemia de COVID-19, período em que a quase totalidade dos casos foram acompanhados nos cuidados de saúde primários.
Os dados internacionais confirmam esta evidência. Portugal apresenta bons resultados em internamentos evitáveis e mortalidade tratável (incluindo doenças agudas), indicadores diretamente associados à qualidade dos cuidados de saúde primários. Estes resultados estão amplamente documentados nos relatórios da OCDE, como o Health at a Glance e o OECD Health Statistics:
- https://www.oecd.org/en/publications/country-health-profile-2025-country-notes_c0e8b8be-en/portugal_56041c8e-en.html
- https://www.oecd.org/health/health-at-a-glance/
- https://www.oecd.org/health/health-data.htm
Apesar disso, o debate político e mediático continua excessivamente centrado na doença aguda e na urgência hospitalar, quando é a gestão da doença crónica que mais influencia os resultados em saúde e a pressão futura sobre o sistema. Ignorar esta realidade é perpetuar um ciclo de resposta reativa, previsível e insuficiente.
Nos últimos anos, assistiu-se a uma crescente aposta em soluções externas ao SNS, sem avaliação pública dos seus resultados. Em paralelo, o investimento no SNS tem sido manifestamente insuficiente: foram abertas, no último concurso, apenas 142 vagas para médicos de família, quando faltam pelo menos 787 no SNS. Persistem atrasos nos concursos e não existem respostas estruturadas para enfermeiros de família e secretários clínicos — faltam 328 profissionais em cada uma destas carreiras.
Ainda assim, os profissionais continuam a escolher o SNS. Nunca existiram tantas USF modelo B (704), nem tantas pessoas nelas inscritas (8.021.170). Quando existem condições de estabilidade e valorização profissional, a resposta surge.
A questão é simples: o que poderia ser alcançado com uma estratégia consistente de investimento no SNS, com incentivos adequados para zonas de difícil recrutamento e com abordagens diferenciadas para territórios de elevada pressão assistencial?
A resposta aos picos previsíveis de procura, como os associados à gripe sazonal, não se esgota no reforço das urgências. Exige também medidas complementares e estruturais: a otimização do SNS 24 (melhores algoritmos, mais recursos, menores tempos de resposta, melhor orientação de casos), a aposta na vacinação contra doenças respiratórias agudas (como a gripe – neste caso, ponderar o aumento da vacinação gratuita nas crianças, um dos grandes veículos de infeção, a COVID-19, a pneumonia, o vírus sincicial respiratório), o investimento em literacia em saúde, a promoção do autocuidado informado e apoiado (sem que a população assuma o que pode ficar em autocuidado, não há sistema de saúde que consiga responder), adoção generalizado de medidas de etiqueta respiratória e a capacitação da população para utilizar adequadamente os recursos disponíveis. Mas, também, experimentar outras vias, como a “pulseira dourada”, como está a ser feito na Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra com a implementação de um novo circuito assistencial, recorrendo à automatização e à inteligência artificial, apoiando o autocuidado.
Sistemas de saúde resilientes constroem-se a partir de cuidados de saúde primários fortes, acessíveis e devidamente capacitados. Não através da multiplicação de respostas excecionais, caras e instáveis.
Persistir num modelo centrado quase exclusivamente na urgência hospitalar é insistir num erro conhecido.
Não é a urgência que salva o SNS.
São os cuidados de saúde primários que o sustentam.
P’la Direção da USF-AN
*comunicado em pdf
*entrevista do Presidente da USF-AN no programa Bom Dia Portugal (01-01-2026) – AQUI