NOTÍCIA USF-AN: O estudo “O Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal 2025/2026” evidencia uma crescente insatisfação com a evolução da Reforma e uma percepção limitada dos benefícios da integração nas ULS

Com 541 coordenadores respondentes, o estudo da USF-AN sobre o Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários 2025/2026 evidencia uma crescente insatisfação com a evolução da Reforma e uma perceção limitada dos benefícios da integração nas Unidades Locais de Saúde.

Todas as USF participantes reportaram falhas informáticas e 85% registaram ausências de profissionais superiores a 30 dias.

A insatisfação com o momento atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários voltou a aumentar entre os coordenadores das Unidades de Saúde Familiar (USF). É esta uma das principais conclusões da 16.ª edição do estudo «O Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal 2025/2026», coordenado por André Biscaia e promovido pela Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar (USF-AN).

O estudo reuniu respostas de 541 coordenadores, correspondentes a 76% das 712 USF em atividade no início da recolha, constituindo a edição com maior participação da série. O questionário decorreu entre 19 de junho e 4 de agosto de 2026, num ano marcado pelos 20 anos da criação das primeiras Unidades de Saúde Familiar.

Os resultados mostram que 46,8% dos coordenadores estão insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o momento da Reforma, enquanto apenas 26% manifestam satisfação. Na edição anterior, a insatisfação era de 43,7% e a satisfação atingia 31,9%.

Em contraste, 74,9% dos coordenadores afirmam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a atividade desenvolvida pela sua própria USF, embora este indicador tenha recuado 5,7 pontos percentuais. A diferença evidencia a confiança das equipas no trabalho que realizam, apesar das dificuldades sentidas no contexto mais alargado da Reforma.

Integração nas ULS com benefícios pouco evidentes

Apenas 23,7% dos coordenadores consideram que a integração nas Unidades Locais de Saúde (ULS) trouxe melhorias para a saúde das populações. Além disso, 57,4% entendem que as lideranças das ULS não atribuem a devida importância aos Cuidados de Saúde Primários. Perante este cenário, 84,5% defendem maior autonomia dos órgãos de gestão dos cuidados primários e 93,9% apoiam o reforço da autonomia financeira das ULS nesta área.

Falhas informáticas em todas as USF participantes

Todas as USF participantes registaram falhas informáticas, e em 91,1% estas ocorreram três ou mais vezes. Para 98,7% dos coordenadores, as interrupções tiveram impacto na qualidade dos cuidados. A interoperabilidade entre aplicações continua a ser uma fragilidade: apenas 22% consideram que os sistemas comunicam adequadamente entre si e é a segunda maior prioridade a resolver. O relatório defende um Registo de Saúde Eletrónico único, a melhoria da interoperabilidade e o reforço do apoio técnico.

Ausências prolongadas pressionam as equipas

Em 85% das USF houve pelo menos um profissional ausente por mais de 30 dias nos 12 meses anteriores. A carência média de profissionais aumentou nos três grupos — médicos, enfermeiros e secretários clínicos — e, em 59,4% das unidades, o trabalho realizado para além do horário oficial não é contabilizado no saldo de horas.

A criação de bolsas de profissionais para assegurar ausências superiores a duas semanas reúne o apoio de 88,9% dos coordenadores. Já a criação de uma carreira especial de técnico de secretariado clínico é defendida por 92,9%.

Acesso, condições de trabalho e contratualização continuam a preocupar

Para 76% dos coordenadores, a dimensão das listas de utentes condiciona a capacidade de resposta das equipas. A conciliação entre a vida profissional e pessoal mantém-se como a principal preocupação pelo quarto ano consecutivo. Acrescem dificuldades materiais: 82,6% das USF registaram faltas de material básico e 41,8% consideram desadequadas as instalações.

Também a contratualização apresenta sinais de deterioração. A discussão dos planos de ação com as ULS desceu para 79,2% das unidades, o valor mais baixo desde 2020/2021, e 85,7% referem incentivos institucionais em dívida ou ainda não disponibilizados. A USF-AN defende uma contratualização plurianual e procedimentos mais simples e atempados.

Qualidade reconhecida, apesar das dificuldades

Apesar do contexto, 61,7% dos coordenadores consideram que a qualidade dos serviços prestados pelas suas equipas é a melhor de sempre. Contudo, 54% das USF reportaram pelo menos um episódio de violência contra profissionais nos 12 meses anteriores.

O estudo destaca ainda os desafios das unidades em territórios rurais ou de baixa densidade populacional, onde a falta de transporte e a baixa literacia em saúde ou digital constituem as principais barreiras ao acesso. Quanto ao futuro, as prioridades são claras: reduzir a burocracia (99,4%), melhorar a conciliação entre vida profissional e pessoal (98,9%) e aumentar a flexibilidade dos horários (96,8%). A integração de outras profissões da saúde nas USF reúne igualmente um apoio expressivo, de 87,9% dos coordenadores.

Um roteiro de medidas para o futuro dos Cuidados de Saúde Primários

O relatório termina com uma agenda de propostas para reforçar os Cuidados de Saúde Primários. A Direção da USF-AN apresenta 20 medidas fundamentais, uma por cada ano desde as primeiras USF, acompanhadas de um conjunto alargado de melhorias detalhadas e dos resultados esperados.

Os resultados apontam para prioridades concretas: garantir recursos humanos adequados, assegurar sistemas de informação fiáveis, reforçar a autonomia dos Cuidados de Saúde Primários e cumprir os compromissos da contratualização.

A satisfação maioritária com a atividade das próprias USF demonstra que as equipas continuam a reconhecer valor no trabalho que desenvolvem. O desafio passa por criar condições organizacionais, tecnológicas e materiais que permitam transformar esse compromisso em melhores respostas às necessidades das populações.

Vinte anos depois da criação das primeiras USF, o estudo da USF-AN deixa um diagnóstico e uma agenda de ação: aproximar as decisões das necessidades das unidades e dos territórios, reforçar a capacidade de resposta das equipas e construir um SNS mais eficiente, acessível e próximo dos cidadãos.

  • Acesso a um site com os resultados do estudo desde o início de um modo interativo: AQUI
  • Apresentação do estudo: AQUI
  • Acesso ao Relatório do Estudo: AQUI

Nos dias 16 e 17 de outubro acompanhe o 17.º Encontro Nacional das USF e a apresentação do estudo através da página da HealthNews dedicada ao Encontro e dos canais oficiais da USF-AN – Facebook; Youtube.

 

P’la Direção da USF-AN