Astenia, adinamia, dificuldades de concentração, queixas depressivas… quantos de nós, perante estas queixas no dia-a-dia, procuram o seu Médico de Família? Provavelmente a maioria desvaloriza o quadro clínico, atribuindo-o às pressões do quotidiano, ao stress do trabalho ou das obrigações familiares. Pois acontece que estas queixas podem ser resultado de uma anemia não diagnosticada ou tão somente de uma ferropénia sintomática. É que em Portugal, cerca de 20% dos adultos sofre de Anemia e mais de 30% sofre de Ferropénia; 84% dos anémicos desconhece que tem anemia e apenas 2,8% estão a ser tratados. Estes números são resultado do estudo EMPIRE publicado em 2016 (1) e estão em linha com o panorama mundial, onde a Anemia afeta 1.92-2.36 biliões de pessoas, das quais 1.24-1.46 biliões têm deficiência de ferro e na qual a Anemia Ferropénica está entre as 5 maiores causas de anos de vida saudável perdidos, associados a incapacidade e a primeira causa nas mulheres (2,3,4).
Não fosse este panorama suficiente para justificar o nosso envolvimento em rastrear a anemia e a ferropénia (não apenas nalguns grupos de risco como por exemplo as grávidas, mas também na população geral, sobretudo nas mulheres), também acontece que os doentes anémicos, quando são submetidos a cirurgia, são expostos a um risco muito aumentado de necessitar de transfusões sanguíneas (50% mais), de mais internamentos em unidades de cuidados intensivos e prolongamento dos seus internamentos hospitalares. E enganamo-nos se julgamos que é pouco relevante, uma vez que em populações cirúrgicas, a anemia pré-operatória atinge os 75% (2) e na União Europeia, 20 a 40% das cirurgias major são efetuadas em doentes com anemia não corrigida (5).
O custo para o sistema de Saúde é muito significativo, mas sobretudo é importante aliviar as consequências e comorbilidades associadas da anemia e da ferropénia nos nossos doentes e proporcionar-lhes qualidade de vida.
Esta é a intenção em promover uma estratégia clínica global e multidisciplinar denominada PBM – Patient Blood Management (2), à qual o AWGP – Anemia Working Group Portugal tem dedicado os seus esforços em divulgar. Estamos convictos que a solução está nos Cuidados de Saúde Primários, está na intervenção na Comunidade, identificando a Anemia e a Ferropénia, valorizando o problema, tratando precocemente estes doentes e salvaguardando que os que vêm a necessitar de cirurgia ou têm os seus partos, não venham a ser sobrecarregados com maior carga de doença, complicações e iatrogenia.
Por estas razões, o AWGP empenha-se em valorizar o problema da Anemia e em promover a implementação de PBM.