Os cuidados de saúde primários são frequentemente descritos como a porta de entrada do sistema de saúde ou o nível de cuidados mais próximo das pessoas, das famílias e das comunidades. Mas será que essa proximidade é efetivamente real ou será, por vezes, mais uma utopia?
Trabalhando diariamente em territórios de baixa densidade, é impossível não reconhecer alguns desafios que se repetem. Pessoas idosas que vivem sozinhas e sem rede de suporte. Doentes crónicos que faltam às consultas de acompanhamento porque não têm transporte. Utentes que não compreendem a informação que lhes é transmitida. Famílias com dificuldades em identificar e mobilizar os recursos disponíveis na comunidade. Situações de vulnerabilidade social que permanecem sem resposta. E todos estes desafios apresentam um denominador comum: refletem-se em piores resultados em saúde.
Perante estes desafios, a resposta mais imediata poderia passar pelo reforço dos recursos existentes, o que, num contexto de necessidades crescentes e recursos inevitavelmente limitados, se aproxima da utopia. Mas residirá o problema apenas na disponibilidade dos cuidados ou também na capacidade de os aproximar efetivamente das pessoas que mais deles necessitam?
Os obstáculos que encontramos diariamente, e que ultrapassam a esfera clínica, relacionam-se com o isolamento, a solidão, a ausência de uma rede de transportes adequada, as dificuldades económicas, a baixa literacia em saúde ou a ausência de redes de suporte. São desafios que surgem fora das unidades de saúde, mas que, inevitavelmente, entram todos os dias pelas suas portas.
Não sendo esta uma questão exclusivamente portuguesa, encontramos noutros países algumas tentativas de aproximação às comunidades como resposta. Durante uma experiência recente no Rio de Janeiro, tive oportunidade de contactar de perto com uma dessas realidades: os Agentes Comunitários de Saúde, integrados nas equipas de atenção primária brasileiras. Estes profissionais desempenham um papel de proximidade particularmente relevante. Conhecem as famílias, visitam os seus domicílios, identificam necessidades de saúde e sociais, promovem a adesão aos cuidados e funcionam como elemento de ligação entre a comunidade e os serviços de saúde. A sua principal ferramenta não é a tecnologia nem a diferenciação técnica. É o conhecimento do território, das pessoas e das suas circunstâncias.
Naturalmente, o contexto brasileiro é muito diferente do português. Os desafios demográficos, sociais e organizacionais não são os mesmos. Não faria sentido defender uma simples transposição de modelos de um país para outro. Contudo, observar esta realidade permitiu-me refletir sobre um princípio que talvez seja universal: a importância da proximidade.
Num tempo em que discutimos inovação, transformação digital e novas formas de organização dos cuidados, talvez seja importante não esquecer que a confiança continua a ser um dos mais poderosos instrumentos de promoção da saúde. E a confiança constróise através da presença, do conhecimento mútuo e da capacidade de criar relações significativas com as pessoas e com as comunidades.
Talvez por isso a principal aprendizagem não tenha sido a existência de uma figura profissional específica, mas sim a valorização do papel de quem consegue construir pontes. Pontes entre os cuidados de saúde e as comunidades. Pontes entre as necessidades identificadas e os recursos disponíveis. Pontes entre aquilo que o sistema oferece e aquilo de que as pessoas realmente necessitam.
A reforma dos cuidados de saúde primários e a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF) demonstraram que é possível transformar organizações, melhorar resultados e aproximar os cuidados das pessoas. Esta é a história de um modelo que nasceu da vontade de fazer diferente, do inconformismo e da coragem.
Hoje, perante necessidades cada vez mais complexas, talvez sejam precisamente estas características que devam continuar a orientar a sua evolução. Porque a inovação nos cuidados de saúde primários não é um destino alcançado, mas um processo contínuo de aprendizagem, adaptação e resposta às necessidades das populações.
Se os desafios mudam, também as respostas terão de evoluir. Não para abandonar os princípios que fizeram das USF uma referência nacional e internacional, mas para os reforçar.
Como concretizamos, hoje, a proximidade? Como garantimos que os cuidados chegam efetivamente às pessoas que deles necessitam? Como podemos reforçar as pontes entre os cuidados de saúde primários, as comunidades e os recursos existentes no território?
Talvez não tenhamos ainda todas as respostas. Mas a história dos cuidados de saúde primários portugueses mostra-nos que nunca tivemos receio de procurar novas soluções para novos desafios. Talvez esteja na altura de voltar a fazê-lo. E talvez algumas dessas respostas possam surgir precisamente da observação de experiências internacionais, reinterpretadas à luz da realidade portuguesa.